Física

Entrelaçamento quântico: duas partículas podem permanecer conectadas a milhares de quilômetros?

25 out 2026 • 5 min leitura

Um experimento realizado com um satélite demonstrou correlações quânticas entre partículas separadas por mais de 1.200 quilômetros. A descoberta desafia nossa intuição sobre distância, informação e realidade.

Imagine duas partículas criadas juntas e enviadas para lugares extremamente distantes. Mesmo separadas por milhares de quilômetros, suas propriedades podem apresentar uma relação que a física clássica não consegue explicar completamente.

Parece ficção científica, mas o fenômeno é real e possui um nome: entrelaçamento quântico.

Durante décadas, cientistas investigaram suas consequências. Hoje, experimentos confirmam que essas correlações existem, embora seu significado continue levantando questões profundas sobre a natureza da realidade.

1. O que é entrelaçamento quântico?

Na física quântica, duas partículas podem compartilhar um estado que não pode ser descrito simplesmente como a combinação de dois estados independentes.

Isso significa que, mesmo separadas, os resultados de determinadas medições apresentam correlações especiais.

Imagine dois fótons entrelaçados. Ao medir uma propriedade de cada um, como sua polarização, os pesquisadores encontram relações estatísticas previstas pela mecânica quântica.

A característica surpreendente não é apenas que os resultados estejam relacionados, mas que essas correlações possam superar os limites permitidos por certas explicações clássicas.

E a distância entre as partículas não elimina necessariamente esse comportamento.

2. O problema que intrigou Einstein

John Bell, responsável pela formulação das desigualdades que permitiram testar experimentalmente certas explicações clássicas do entrelaçamento.

Em 1935, Albert Einstein, Boris Podolsky e Nathan Rosen publicaram um trabalho questionando se a mecânica quântica oferecia uma descrição completa da realidade.

A ideia de que partículas distantes pudessem apresentar correlações tão incomuns parecia problemática.

Décadas depois, o físico John Bell desenvolveu uma maneira de investigar a questão experimentalmente.

As chamadas desigualdades de Bell estabelecem limites para correlações previstas por determinadas teorias baseadas em propriedades previamente definidas e influências locais.

A mecânica quântica prevê situações em que esses limites são ultrapassados.

Experimentos realizados por John Clauser, Alain Aspect e Anton Zeilinger ajudaram a demonstrar esse resultado. Os três receberam o Prêmio Nobel de Física de 2022.

Essas descobertas fortaleceram a mecânica quântica e mostraram que algumas explicações intuitivas sobre o funcionamento da natureza não são suficientes.

3. O experimento que alcançou 1.203 quilômetros

Em 2017, uma equipe de pesquisadores chineses realizou um experimento extraordinário utilizando o satélite científico Micius.

O satélite produziu pares de fótons entrelaçados e enviou cada partícula para uma estação terrestre diferente.

As estações estavam separadas por aproximadamente 1.203 quilômetros.

Mesmo após percorrerem enormes distâncias, os fótons preservaram correlações quânticas mensuráveis.

Os pesquisadores também observaram uma violação de desigualdade de Bell, confirmando o comportamento previsto pela teoria.

O estudo foi publicado na revista Science, sob o título Satellite-Based Entanglement Distribution Over 1200 Kilometers.

O resultado demonstrou que o entrelaçamento pode ser distribuído em escalas muito superiores às de um laboratório convencional.

4. Isso permite transmitir informações instantaneamente?

montagem experimental com fótons, detectores e componentes ópticos.

Aqui está uma das distinções mais importantes da física quântica.

Não. O entrelaçamento não permite enviar mensagens instantâneas entre duas partículas distantes.

Embora os resultados das medições apresentem correlações, cada observador encontra resultados individuais que não pode controlar para transmitir uma mensagem.

Para comparar os dados e identificar essas correlações, os pesquisadores precisam utilizar canais convencionais de comunicação.

Portanto, os experimentos não demonstram que informações possam viajar mais rápido que a luz.

O fenômeno desafia determinadas ideias clássicas sobre a realidade, mas não contradiz a proibição de comunicação superluminal estabelecida pela relatividade.

5. O que essa descoberta pode transformar?

laboratório de redes quânticas, representando as pesquisas sobre comunicação e distribuição de entrelaçamento.Departamento de Energia dos EUA — Redes quânticas

O entrelaçamento quântico deixou de ser apenas um problema filosófico e passou a integrar pesquisas sobre novas tecnologias.

Entre suas aplicações estão a computação quântica, a comunicação quântica e o desenvolvimento de redes capazes de conectar dispositivos que processam informações quânticas.

O experimento com o satélite Micius representou um avanço importante para a possibilidade de distribuir entrelaçamento a grandes distâncias.

Entretanto, uma internet quântica global plenamente operacional ainda enfrenta desafios técnicos significativos.

O aspecto mais fascinante talvez seja outro: a natureza permite correlações que não se encaixam em nossas expectativas habituais sobre objetos separados no espaço.

Duas partículas podem estar a milhares de quilômetros de distância e, ainda assim, compartilhar um estado quântico que só pode ser compreendido considerando o sistema como um todo.

A física já demonstrou esse fenômeno. Compreender todas as suas implicações para nossa interpretação da realidade continua sendo um dos grandes desafios da ciência.


Nota editorial — Divisão 7

O entrelaçamento quântico é um fenômeno demonstrado experimentalmente, não uma hipótese especulativa. Os resultados das desigualdades de Bell e os experimentos realizados com o satélite Micius constituem evidências científicas verificáveis.

Entretanto, o fenômeno não comprova a existência de comunicação instantânea, transmissão de pensamentos ou outras interpretações populares sem respaldo experimental.

Apresentamos essas descobertas distinguindo os resultados confirmados das questões que permanecem abertas na física.

DIVISÃO 7 — Ciência além do horizonte

Per Vitam, Ad Astra.

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