Todas as noites, nosso cérebro constrói mundos, personagens e acontecimentos que parecem reais. Mas por que isso acontece? A ciência já encontrou algumas respostas — e muitas perguntas continuam abertas.
Imagine encontrar alguém que não vê há anos, caminhar por uma cidade desconhecida ou viver uma situação impossível. Durante o sonho, tudo pode parecer perfeitamente natural. Somente ao despertar percebemos que aquela experiência foi criada pela nossa própria mente.
1. O cérebro não desliga quando dormimos
O sono não é um estado de inatividade. Durante a noite, nosso cérebro alterna entre diferentes estágios, cada um associado a padrões específicos de atividade.
Um deles é o sono REM (Rapid Eye Movement), caracterizado por movimentos rápidos dos olhos e intensa atividade cerebral. É nessa fase que costumam ocorrer os sonhos mais vívidos e elaborados.
Durante o REM, a atividade de determinadas regiões cerebrais pode se aproximar daquela observada quando estamos acordados. Ao mesmo tempo, mecanismos neurológicos reduzem temporariamente os movimentos de grande parte da musculatura voluntária.
Isso ajuda a explicar como podemos correr, voar ou enfrentar situações extraordinárias em um sonho sem executar fisicamente essas ações.
Mas existe um detalhe importante: não sonhamos apenas durante o sono REM. Experiências oníricas também podem ocorrer em outras fases do sono.
Referência: National Institutes of Health — Understanding Sleep.
2. Cientistas identificaram regiões cerebrais associadas aos sonhos

Em 2017, pesquisadores publicaram na revista Nature Neuroscience um estudo que ajudou a transformar nossa compreensão dos sonhos.
Utilizando eletroencefalografia de alta densidade, a equipe monitorou a atividade cerebral de voluntários enquanto dormiam. Os participantes eram despertados em diferentes momentos e relatavam se haviam acabado de sonhar.
Os pesquisadores identificaram uma região posterior do córtex cerebral, envolvendo áreas parietais e occipitais, cuja atividade estava associada à presença de experiências oníricas.
A descoberta foi especialmente interessante porque essa associação apareceu tanto durante o sono REM quanto fora dele.
Mas, afinal, por que sonhamos? Os sonhos surgem da atividade cerebral durante o sono, possivelmente envolvendo o processamento de memórias e emoções. Entretanto, sua finalidade exata permanece desconhecida. Entre as hipóteses estão a consolidação de lembranças e a simulação de experiências.
O estudo demonstrou que é possível identificar sinais cerebrais associados à experiência de sonhar, embora isso esteja muito longe de permitir assistir aos sonhos de alguém como se fossem filmes.
Referência: Siclari e colaboradores — The Neural Correlates of Dreaming, Nature Neuroscience (2017).
3. Por que nossos sonhos parecem tão estranhos?

Em um sonho, podemos encontrar pessoas de épocas diferentes, visitar lugares que nunca existiram ou passar por acontecimentos que desafiam as leis da física.
Uma das explicações investigadas pela neurociência envolve a interação entre memória, emoção e os sistemas cerebrais responsáveis por construir experiências conscientes.
Fragmentos de acontecimentos recentes podem se combinar com lembranças antigas, preocupações e elementos imaginários.
O resultado nem sempre segue a lógica que utilizamos quando estamos acordados.
Durante o sono REM, também ocorrem mudanças na atividade de redes cerebrais relacionadas ao controle cognitivo e ao processamento emocional. Essas diferenças podem contribuir para a intensidade e a aparente naturalidade de situações improváveis.
Entretanto, a ciência ainda não possui uma explicação completa para a construção das narrativas dos sonhos.
Sabemos que o cérebro pode combinar experiências e produzir cenários complexos. Ainda investigamos por que determinadas lembranças aparecem e outras não.
Referência: Mutti e colaboradores — Dreaming Conundrum, Journal of Sleep Research (2025).
4. Sonhar ajuda a organizar memórias e emoções?

Uma representação anatômica do hipocampo, estrutura importante para a formação de memórias.
Essa é uma das hipóteses mais interessantes da neurociência.
Há evidências de que o sono participa da consolidação de memórias, processo pelo qual determinadas informações são estabilizadas e integradas ao conhecimento existente.
Mas o papel específico dos sonhos nesse mecanismo ainda está sendo investigado.
Em 2024, pesquisadores da Universidade da Califórnia, Irvine, publicaram um estudo na revista Scientific Reports examinando a relação entre sonhos e processamento emocional.
Os participantes realizaram tarefas envolvendo imagens com conteúdo emocional antes e depois de uma noite de sono.
Os resultados mostraram associações entre recordar sonhos e mudanças na memória emocional e na reação a determinados estímulos.
Essas observações sugerem que sonhar pode participar do processamento de experiências emocionais.
Contudo, os pesquisadores ainda precisam determinar com maior precisão se os sonhos contribuem diretamente para esses processos ou se refletem atividades cerebrais que já acontecem durante o sono.
Dormir ajuda a memória. Mas ainda não sabemos exatamente quanto dessa função depende de sonhar.
Referências: Zhang e colaboradores — Scientific Reports (2024) e Bloxham e Horton — Consciousness and Cognition (2024).
5. O maior mistério: por que experimentamos outra realidade?
Talvez o aspecto mais fascinante dos sonhos não seja a presença de imagens ou lembranças, mas a sensação de realmente estar vivendo aqueles acontecimentos.
Durante o sono, podemos sentir medo, alegria, surpresa e curiosidade. Reconhecemos pessoas, tomamos decisões e experimentamos ambientes inteiros, mesmo sem receber as mesmas informações sensoriais do mundo exterior.
Isso transforma o estudo dos sonhos em uma questão ainda mais profunda: como o cérebro produz experiências conscientes?
Pesquisas já identificaram padrões de atividade associados aos sonhos, mas esses resultados não explicam completamente como a atividade de neurônios se transforma na experiência subjetiva de estar dentro de um mundo imaginário.
O estudo dos sonhos, portanto, não investiga apenas o sono. Ele também oferece uma oportunidade de compreender a própria consciência.
Conclusão
A neurociência avançou consideravelmente na identificação dos mecanismos cerebrais associados aos sonhos.
Sabemos que eles podem ocorrer em diferentes fases do sono, que envolvem redes específicas do cérebro e que apresentam relações importantes com memória e emoções.
Mas sua função exata permanece em debate.
Talvez os sonhos participem da organização das nossas experiências. Talvez desempenhem diferentes funções, dependendo do estágio do sono e das circunstâncias. Ou talvez parte deles seja consequência de processos cerebrais cuja finalidade principal não é produzir histórias.
Por enquanto, não existe uma resposta definitiva.
E é justamente isso que torna os sonhos tão extraordinários: todas as noites, o cérebro humano demonstra sua capacidade de construir uma realidade inteira — enquanto ainda tentamos compreender como ele faz isso.
Nota editorial — Divisão 7
Este artigo apresenta descobertas científicas sobre a atividade cerebral durante os sonhos. Embora existam evidências de sua relação com a memória e o processamento emocional, sua função exata ainda não foi estabelecida. As hipóteses apresentadas refletem pesquisas em andamento e não devem ser interpretadas como conclusões definitivas.
Divisão 7 — Ciência além do horizonte.
Per Vitam, Ad Astra.
